terça-feira, 14 de maio de 2013

Aos Loucos o Hospício...

Por: Neliane Aparecida Silva e Daiana Silveira

No período da Renascença, surge um novo objeto para separar o louco da sociedade, denominado de Nau dos Loucos, essa barca, cuja tripulação era composta por pessoas com transtornos mentais navegava livremente pelos rios da Renânia e dos canais flamengos.

Com essa medida, garantia-se a segurança dos cidadãos “normais”, que se sentiam ameaçados com esses sujeitos de comportamento duvidoso. Esse desejo do embarque dos loucos simbolizava a inquietude da sociedade no final da Idade Média, em relação à loucura. Tal fato era comum nas cidades européias do século XV. Quando não embarcavam nos navios, os loucos eram escorraçados das cidades e ficavam vagando pelos campos, longe de seus muros, ou colocados em meio a grupos de peregrinos.

A água, no momento histórico aqui descrito, representava para os loucos, o único território habitável, onde eles não seriam escorraçados ou maltratados.
  
Além dessas embarcações e peregrinações, os loucos eram proibidos de frequentarem as igrejas, embora não lhes fosse negado os sacramentos, além de serem chicoteados publicamente e perseguidos com bastonadas até saírem dos limites das cidades, o que mostra sua histórica humilhação e exclusão social.

Ao chegar ao seu destino final, o louco não tem a mais remota idéia de onde está ou de seu local de origem. Sua única certeza é a de que as portas da cidade sempre estarão fechadas à sua presença, fato que na contemporaneidade, ainda ocorre.

Ao final do século XV, a lepra deixa de assombrar o mundo, devido ao fato de os soldados retornarem das Cruzadas no Oriente Médio e não terem mais nenhum contato com os focos desta doença. Com isto, os leprosários ficam vazios, porém a exclusão irá persistir na mente das pessoas e se tornará palco de algo ainda mais desumano, recebendo o nome de manicômios.

Acontece que essas instituições, haviam em muito se multiplicado por toda a Europa e com a bondade dos nobres, recebiam altos donativos para auxiliar no tratamento dos doentes. Quando o vazio se estabelece, começa-se a pensar no que fazer com esses locais e para resolver o problema dos loucos que circulavam pelas cidades, muitos dos quais regressavam, após serem lançados ao mar nas Naus ou expulsos das cidades, se tem a idéia de colocá-los nesses locais, juntamente com os pobres, os idosos e os presidiários, fazendo com que assumam o papel antes dedicado ao leproso e iniciando assim, a relação do tratamento das doenças psíquicas, com as internações e passando-se a se denominar os antigos leprosários de manicômios ou hospícios à partir do século XIX.

Entretanto, antes de a loucura assumir o papel da lepra, esta foi inicialmente substituída pelas doenças venéreas e o número de pessoas acometidas por esse mal cresce tanto, que se começa a pensar na construção de outros locais para abrigá-los, visto que, não eram bem recebidos pelos pacientes que possuíam outros tipos de doenças nos hospitais.

Com o passar dos anos, as doenças venéreas se misturam as demais doenças, embora seja fato que os doentes continuem a ser excluídos, e os loucos, mesmo contrariando a opinião de muitas pessoas influentes, começam a ser internados. O que antes era visto como uma possessão demoníaca, um estado diferente e engraçado ou um motivo para se banir alguém alienado, agora se torna causa médica e passa-se a buscar o tratamento adequado para tratar desse mal, mas ainda será preciso um longo tempo de quase dois séculos, para que se consiga dominá-la.

Os primeiros hospitais europeus a abrigarem pacientes com transtornos mentais foram a colônia de Geel, localizado na Bélgica, no ano de 850 e o Bethlem Royal Hospital, situado em Londres. O conceito difundiu-se em todo o continente e os maus tratos aos pacientes eram visíveis: recebiam castigos físicos, eram privados de se alimentarem, recebiam guilhetas nos pés. Muitos ficavam acorrentados ou eram lançados em buracos escuros, frios e úmidos.

No século XVII, de acordo com os relatos de Focault (1978), essas práticas e os hospícios já eram comuns. No ano de 1656, cria-se em Paris o Hospital Geral, que agrupava em um mesmo local o hospital Salpêtriére, destinado à internação de mulheres com transtornos psíquicos, e o hospital Bicêtre, que cuidava dos soldados inválidos da guerra, alojando, alimentando e recolhendo as pessoas que ali chegavam por sua própria vontade, ou eram encaminhadas por representantes monárquicos ou jurídicos. Não se trata simplesmente de uma unidade de saúde, mas de uma instituição jurídica que julga, decide e executa, de acordo com suas próprias leis.

Pessoas de comportamento agressivo e agitado, também eram consideradas loucas pela sociedade e juntamente com os outros excluídos citados anteriormente, eram internadas nestes locais e ficavam aguardando sua morte. O que se constata é que essas práticas adotadas, não possuíam qualquer caráter assistencial e os tratamentos nestes hospitais, tinham como objetivo simplesmente salvaguardar a sociedade da presença destes indivíduos, tratados como animais.

Muito mais aconteceu dentro dessas instituições e por muito tempo esses tratamentos foram questionados por médicos e outros profissionais da saúde originando o Movimento de Reforma Psiquiátrica e desencadeando o dia da Luta Antimanicomial comemorado no Brasil no dia 18 de maio, que neste ano tem como tema algo que nos remete a essas práticas antigas, mas que se mostra mais atual como nunca: “Porque saúde não se vende. Louco não se prende. Quem tá doente é o sistema social”. Que possamos refletir sobre isso!


Referência Bibliográfica:

FOCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978.



4 comentários:

  1. DAS NARRENSCHIFF: O início do seu texto nos remete ao que considero ser um dos mais poéticos escritos do Foucault. Havia na água algo de encantado, que se perderia com o desencantamento do mundo, tão bem descrito pelo Weber, com a ascensão do iluminismo. Confesso ter sentido falta da citação textual, e da qual não lembro em sua integra, mas que liga a figura do louco à figura do passageiro, ou seja, aquele que como louco é, ele mesmo, o prisioneiro da passagem...

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    1. Olá Paulo, que bom ter vc comentando por aqui. De fato a passagem que vc faz referência é belíssima. Ela é de uma profundidade invejável e ao mesmo tempo muito poética. Aliás, o livro a "História da Loucura" é belo do início ao fim.

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